Violência obstétrica – relato de Thais Chen

Sabe porque precisamos lutar para disseminar informações sobre o que é violência obstétrica? Para que outras mulheres não passem pelo que a minha mãe passou, pelo que a Thais Chen passou e pelo que tantas outras mulheres passaram e passam. O texto é triste. Mas é importante para termos consciência do quão errado é tudo isso.

Relato de parto da Thais Chen.


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Eu tinha 22 anos quando engravidei pela primeira vez. Aos 4 meses descobri que, por um erro contratual do meu plano de saúde, eu não teria cobertura para o parto. Fui acompanhada durante o pré natal por um médico amigo da família. Ele gentilmente sugeriu para agendarmos uma cesárea numa quarta-feira que seria o plantão de uma colega dele no Miguel Couto caso eu não quisesse ser atendida por desconhecidos. Mas pra mim, parir era uma coisa tão natural, não me passava pela minha cabeça fazer uma cirurgia ainda mais por um motivo ridículo desse. Não deveria existir nenhum mistério, algo que eu precisasse muito saber, afinal milhares de mulheres pariam no SUS diariamente, era uma coisa fisiológica. Comigo não seria diferente, tudo correria bem. Me preparei psicologicamente para a tal “dor insuportável”, meu marido sempre me incentivou e reforçava aquilo que eu já sabia: que eu era capaz. Então dia 11/09/2004 entrei em tp. Não era quarta, que pena mas “ok, posso parir em qualquer lugar” pensei. Passei o sábado no trabalho sentindo cólicas que ganhavam ritmo. Fomos numa despedida de um amigo que iria morar fora do Brasil. As cólicas viraram contrações dolorosas. Fomos pra casa da minha sogra e ficamos jogando baralho pra desviar o foco da dor. Fomos pra casa, tentei dormir mas a dor já não deixava. De madrugada levantei, fui tomar banho e depilar a pepeca pois lembrei que “era obrigada a depilação total”. Com contrações e pouca visibilidade rsrs foi difícil mas com ajuda de um espelho consegui. “Amor pega a bolsa e vamos”. Eu estava muito tranquila e serena apesar da dor intensa. Relembrava tudo que eu e meu marido tínhamos conversado durante a gestação e procurava me manter no controle. Tinha convicção de que não seria esse terror todo que falavam e estava feliz porque finamente chegou o dia de conhecer meu filho. Foi quando cheguei na maternidade e tudo mudou.

Meu marido aguardou na recepção enquanto entrei para ser examinada. As residentes conversavam entre si “Essa aí não vai ficar! Duvido” se referindo a mim como se eu não estivesse ali, como se eu não fosse ser internada pelo fato de eu estar tão calma, então eu não deveria estar em tp. Uma me deu o toque “vai ficar sim! 2 pra 3!” Fez cara de surpresa pra outra que também me tocou para confirmar o que a primeira dissera. Enquanto elas debatiam se iam ou não me internar, outra parturiente chegava na triagem e eu ouvi outra residente gritar “ah não acredito que você veio com essa xereca assim! Eu que vou ter que te depilar?”. Eu queria sumir dali, ir embora correndo. Mas embora pra onde? Qualquer lugar que eu fosse seria esse nível, eu só tinha o SUS como opção e já estava em franco trabalho de parto. Talvez fosse melhor eu manter a serenidade, me concentrar no meu filho, tentar ser “amiga” delas pra quem sabe elas me darem um tratamento melhor. “Você vai subir. Tira a roupa, aliança, brincos e veste isso aqui”. Me deram uma camisola daquelas de bunda de fora, eu vesti, abri uma fresta na porta e por lá entreguei meus pertences ao meu marido. “Vou ser internada amor” Ele me deu um olhar solidário, me beijou, carinhou meu rosto “vai ficar tudo bem” e eu fechei a porta (a lei do acompanhante só veio no ano seguinte, mas até hoje, 13 anos depois de seu vigor, muitas maternidades ainda proíbem a entrada). Parecia que eu tinha entrado num campo de refugiados, de concentração de guerra. Que solidão, quanta falta de empatia, que medo do que estaria por vir! Era um corredor bem comprido com varias divisórias que cabiam somente uma maca. Muitas mulheres chorando, implorando por atendimento, gritando que iam morrer, amedrontadas e abandonadas. “Na hora de dar vocês não gritaram!”

Eu ficava em pé, na porta do meu box, assistindo todo aquele terror, assustada, com vontade de chorar. “Será que vai chegar essa hora que a dor vai ficar tão insuportável que vou achar que vou morrer? Será que vão vir me socorrer? Talvez tivesse sido melhor aceitar a cesárea.” Me controlava, conversava com meu filho e com Deus “já vai acabar, nós já vamos sair daqui, juntos!”, falava comigo mesma “você não pode fraquejar agora, não deixe a dor te dominar, você está no comando”. Veio uma enfermeira lixando as unhas “tá nervosa fofinha? Você não pode ficar aqui em pé não, tem que ficar ali deitada”. Deitada a dor intensificava ainda mais, mas não me via em condições de rebater, tinha medo de represálias e de ser ainda mais maltratada, temia pelo meu filho. Sentia fome e sede. Passei o resto da madrugada recebendo toques de diferente lá profissionais. E obrigada a ficar deitada, ouvia os gritos e gemidos as outras e ecoarem na minha cabeça. Amanheceu, trocou o plantão. Deixaram minha sogra subir (acompanhante só mulher). Médico me examinou, residente também. “Vamos colocar um sorinho para acelerar isso”. Enfermeira furou meu braço sei lá quantas vezes, o sangue derramava sobre o lençol. Quando a ocitocina começou a correr, a dor triplicou e imediatamente passei mal “vou vomitar”. Foram uma 3 ou 4 vezes. De tempos em tempos alguém vinha me examinar. Quanta dor e constrangimento eu sentia cada vez que enfiavam os dedos na minha vagina! “Daqui a pouco vou vir estourar sua bolsa” Fiquei sem reação imaginando como seria isso. Mas ufa, não foi necessário pois logo depois estourou espontaneamente. Outro toque e “dilatação total. Mãe, levanta que seu filho vai nascer” Eu não sentia nada diferente “se eu levantar meu bebê vai cair no chão” pensei. Mas levantei, fui andando empurrando meu próprio soro, com as pernas mais fechadas possível com a sensação de estar indo pro matadouro.

Me deitaram na maca gelada, pernas pra cima, posição ginecológica. Ficar assim aumentava muito minha dor, sentia todos os órgãos esmagarem, tentava virar de lado “mãe seu filho vai nascer agora, fica deitada com a barriga pra cima senão vou ter que te amarrar. Fica parada que eu vou dar um corte aqui”. Contrações vinham “agora faz força comprida pra botar essa criança pra fora” mais umas 3 contrações dessas e apareceu alguém que subiu na minha barriga pressionando forte e empurrou meu filho pra fora. Silêncio. Finalmente eu choro, um choro de alívio. Espero sentir meu filho no meu colo, mas ele não vem. O médico segura ele de cabeça pra baixo,dá um tapa no bumbum e ele chora. Alguém leva ele pra fora do meu campo de visão com mais sei lá quantos bebês que estavam nascendo ao mesmo tempo naquela sala, meu coração dispara “como vou saber qual é meu filho?”. Meu impulso é levantar. Sou contida pelas mãos da médica. “Ainda tem que sair a placenta pra eu te costurar” Escuto de longe o choro do meu filho misturado aos demais, aqueles minutos duram eternidade, quanto medo senti! Finalmente recebi meu filho todo embrulhado enquanto estava sendo costurada. Saí de lá, fui pro alojamento conjunto e meu marido teve que esperar o horário da visita para conhecer o filho dele. Tirando as agressões verbais, eu só fui reconhecer como violência os procedimentos que eu achava serem padrão de um atendimento ao parto normal (limitação de movimentos, privação de comida e água, ocitocina sintética, manobras de valsava e kristeller, episiotomia…) 10 anos mais tarde quando engravidei novamente e obtive informações essenciais e rede de apoio. Por isso estou aqui, entre lágrimas revivendo minha dor. Para dizer que um parto normal não se parece em nada com isso, isso é violência obstétrica. Para alertar o maior número de mulheres, para que elas conheçam e exijam seus direitos. Façam seu plano de parto, compartilhem informações com seus acompanhantes, se tiverem vontade tenham uma doula. Não deixe que ninguém transforme esse momento divino que é pra ser lindo, em algo traumático. Parto é amor. Busquem redes de apoio, se informem e se apoderem do seu próprio parto.”

Triste. Meus olhos se enchem de lágrimas. Mas é a realidade. E não achem que não acontece hoje em dia, acontece e muito. Infelizmente.

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