Parto normal ou Cesárea? (sem polêmica)

O assunto é muito polêmico. Parece que não podemos falar sobre a cesárea e compará-la ao parto normal. Não só podemos, como devemos! E via de parto não é “mãezímetro”. Não estou criticando ninguém que teve cesárea. Minha intenção é informar. É derrubar o pano que esconde a realidade dessa fantasia de que é uma coisa linda e sem riscos. Então vamos direto ao ponto!

Vamos começar falando dos índices no Brasil: a Organização Mundial de Saúde considera como razoável o número de 15% de cesáreas, mas de acordo com o os números de 2017, 55,5% dos partos realizado aqui resultam em cirurgia (sim! cesárea é uma cirurgia!). Na rede privada, esse número ultrapassa os 80%. E aí vem a pior notícia: o Brasil é o país campeão do mundo em cesáreas.

Qual é o problema disso? O problema está na realização da cesárea eletiva, ou seja, aquela agendada por opção, e a intraparto sem real necessidade. Vamos ilustrar: você está numa boa, tranquila e pensa “Humm… Acho que vou marcar uma cirurgia para semana que vem”. Não, isso não acontece. Seria um absurdo, afinal de contas, toda cirurgia tem riscos certo? Você só faz cirurgia se realmente precisa. E aí é que começa o problema do “sistema”. Vou falar mais sobre isso ao longo do post. Vamos focar em riscos e benefícios por enquanto.

Riscos da cesárea eletiva desnecessária:

Para as mães:

  • Infecção: pode ocorrer no local da incisão, no útero e em outros órgãos pélvicos como na bexiga.
  • Hemorragia ou aumento de perda sanguínea: há mais perda sanguínea na cesárea do que no parto vaginal. O que pode levar à anemia ou à transfusão de sangue.
  • Ferimentos nos órgãos: possível ferimento em órgãos como bexiga ou intestino.
  • Aderência: o tecido cicatricial pode se formar dentro da região pélvica causando bloqueio e dor. As adesões também podem levar a futuras complicações da gravidez, como a placenta prévia ou o descolamento da placenta.
  • Internação hospitalar prolongada: a estadia após a cesárea é de 3 a 5 dias se não houver complicações.
  • Tempo de recuperação prolongado: a quantidade de tempo necessário para a recuperação após uma cesariana pode variar de semanas a meses. A recuperação prolongada pode ter um impacto no tempo de vínculo com seu bebê (1 em 14 alegam dor na incisão seis meses ou mais após a cirurgia).
  • Reações a medicamentos: pode ocorrer reação negativa à anestesia administrada durante uma cesárea ou reação à medicação para dor administrada após o procedimento.
  • Risco de cirurgias adicionais: possível histerectomia, reparo da bexiga, por exemplo.
  • Reações emocionais: algumas mulheres que passaram por cesárea relatam que tiveram sentimentos negativos após a cirurgia e que tiveram problemas em criar vínculo inicial com o bebê.

Para os bebês:

  • Nascimento prematuro: se a idade gestacional não foi calculada corretamente, o bebê que nasce por cesárea agendada pode nascer muito cedo e com peso baixo.
  • Problemas respiratórios: quando nascido por cesárea, o bebê tem mais chances de ter problemas respiratórios. Alguns estudos mostram a existência de maior necessidade de assistência à respiração e cuidados imediatos após uma cesárea do que após um parto vaginal.
  • Índice de APGAR baixo: o baixo índice de APGAR pode ser devido à anestesia, sofrimento fetal antes do parto ou falta de estímulo durante o parto (o parto vaginal proporciona estímulo natural para o bebê enquanto ele está no canal). Bebês que nascem através de cesáreas são 50% mais propensos a terem índices de APGAR mais baixos do que os que nascem via parto vaginal.
  • Lesão fetal: muito raramente o bebê pode ser cortado durante a incisão (em média, 1 ou 2 bebês em cada 100 são cortados durante a cirurgia)

Sem falar do vínculo inicial com a mãe. A recomendação do ministério da saúde é de que o bebê seja colocado imediatamente após ao nascimento no colo da mãe, se não houver complicações. E esse ato também estimula a amamentação.

Alguns desses riscos também existem no parto normal, mas atente-se ao fato de que é sempre menor se comparado à cirurgia.

Mas você deve estar achando que sou super contra a cesárea, certo? NÃO! Eu acho essa intervenção cirúrgica maravilhosa e ela salva vidas (meu filho está aqui por causa dela). Mas o que precisa ser compreendido é que ela é uma cirurgia e só deve ser realizada se for necessária. Como saber se é necessária ou não?

Indicações REAIS:

  • Prolapso de cordão – com dilatação não completa.
  • Descolamento prematuro da placenta com feto vivo – fora do período expulsivo.
    Placenta prévia parcial ou total (total ou centro-parcial).
  • Apresentação córmica (situação transversa) – durante o trabalho de parto (antes pode ser tentada a versão).
  • Ruptura de vasa praevia (vasos fetais cruzando o segmento inferior uterino).
  • Herpes genital com lesão ATIVA no momento em que se inicia o trabalho de parto.

Podem acontecer, porém frequentemente são diagnosticadas de forma equivocada:

  • Desproporção cefalopélvica (DCP): o diagnóstico só é possível intraparto e não pode ser antecipado durante a gravidez.
  • Sofrimento fetal agudo (o termo mais correto atualmente é “frequência cardíaca fetal não tranquilizadora”).
  • Parada de progressão que não resolve com as medidas habituais.

Pela grande variação do que é fisiológico, considera-se que não é necessário intervir para apressar um parto, independente de sua duração, quando mãe e bebê estão bem.

Abaixo situações especiais em que a conduta deve ser individualizada:

  • Apresentação pélvica
  • Duas ou mais cesáreas anteriores
  • Hiv/aids

Agora faltam as indicações FICTÍCIAS. Como assim, Carine? Pois é! Por falta de informação ou por pura conveniência, muitos médicos indicam cesáreas por MUITOS motivos que não existem, não tem base em evidência científica. Não vou citar todos aqui, mas aconselho a leitura no post da Melania Amorim onde ela cita 227 INDICAÇÕES FICTÍCIAS DE CESÁREA. E como ela diz, infelizmente não é piada.

As mais comuns são:

  • Cordão enrolado no pescoço.
  • Bacia muito estreita
  • Baixa estatura da mãe
  • Bebê grande demais
  • Bebê pequeno demais
  • Bolsa rota (bolsa que estourou)
  • Gravidez prolongada
  • Infecção urinária
  • “Passou do tempo”
  • Bebê que não encaixa antes do trabalho de parto
  • Colo fechado antes do trabalho de parto

E a lista é imensa.

E a causa disso é aquele “sistema” que falei lá no começo. O médico ganha pouco do convênio, não quer ficar esperando horas e horas um trabalho de parto, prefere trabalhar das 8h às 17h e assim segue a rotina de fazer cesárea agendada por puro comodismo. Não querem se atualizar, não querem o melhor das suas pacientes. É triste, mas é a realidade.

Bom… Acho que deu para ter uma ideia porque o movimento contra a cesárea eletiva só cresce, certo? É mais arriscado, não faz bem pra ninguém (exceto para o médico que vai poder curtir o feriado) e vai contra as recomendações das organizações de saúde do mundo.

Então SE INFORME! Pense no bem estar do seu bebê e no seu também.

E se chegou à conclusão de que o parto normal é a melhor escolha mas tem medo de tudo o que já ouviu ou vou sobre os partos “normais” por aí, eu recomendo a leitura do próximo post. Vou falar sobre violência obstétrica e as diferenças entre um parto normal e um parto natural humanizado. E aí esse medo tem grandes chances de ir embora! Combinado?

Beijo da Cá!

Fontes:

http://estudamelania.blogspot.com.br/2012/08/indicacoes-reais-e-ficticias-de.html?m=1

http://americanpregnancy.org/labor-and-birth/cesarean-risks/

http://www.brasil.gov.br/saude/2015/03/conheca-os-riscos-de-uma-cesariana-desnecessaria

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